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sábado, 26 de maio de 2012

Pedaços de vida #9

         Levantou-se da desgastada poltrona e arrastou-se pela poeirenta habitação até à janela. Parecia encravada. Talvez fosse o jeito, talvez força que faltasse àquelas tremules mãos.
        Por fim, o fecho cedeu perante tamanha persistência. A sala foi, então, trespassada por uma forte luz, invadida por cheiros de primavera, e o silêncio interrompido por cantar de pássaros que acolhiam o velho numa paz singela.
         Na rua passava gente apressada e alguns cães vadios.
         Estarão as crianças na escola?
        Ali ficou horas, absorto de si mesmo e da vida por viver. Apenas deu pelo cair da noite quando a lua apareceu resplandecente no alto.
          Há um homem da lua que ainda lá vive.
         E, assim, nem a lua é tão só como um homem que à janela tem sonhos que o acordam. É este o momento em que aguarda pelas respostas duvidosas de quem dele diz cuidar, aguarda pelo milagre da medicina, aguarda pelo desfecho da existência.
         Enquanto isso, fecha os olhos. Terá ainda tempo de sonhar. Todo o homem sonha, até o homem da lua.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Pedaços de vida #8

Umas vezes discutem, outras ficam zangados. Aprenderam a viver assim. Nem se lembram de como eram antes. Terá havido um momento em que estilhaçaram as lentes da compreensão, em que deixaram de se ver como metades encaixantes. Um momento em que o eixo de rotação da relação sucumbiu a forças capazes de desmagnetizar o que antes era atração. Um momento a partir do qual deixaram de sentir. Ou talvez nem tenha sido um simples momento, mas uma combinação de acomodações que corroeram o bem-estar de cada um, dissolvendo a cada vez mais tremule ligação que os unia. O certo é que agora se olham com estranheza, vivem sem saber gesticular e nunca têm o que dizer. Às vezes discutem, às vezes zangam-se, às vezes calam-se…
Não sabem o que vai acontecer a seguir, ninguém lhes diz. Cada passo é dado sem a consciência de que foi seguido de outro e de que sem outro que lhe siga nunca entenderá que direção vai tomar.



sábado, 10 de março de 2012

Pedaços de vida #7


De cada vez que o pincel tocava a tela, via surgir-lhe o corpo. Eram as mesmas linhas que recordava em contornos que conhecia. Não deixava ver-lhe o rosto, nunca poderia fazer jus àquele olhar caloroso.
Usava sempre tons de cinzento nas figuras que recriava. Não eram marcas de luto, apenas sentia que na sua vida sem ele, a realidade não poderia ser distorcida por colorações que o tempo se encarregaria de apagar.
Umas vezes retratava-o jovem, outras, um homem maduro que não chegou a conhecer. Enquanto o pintava, acreditava na sua presença ali. Não importava que não fosse real. Naquele curto intervalo de tempo, ele voltava para ela, agarrando-se à vida, para depois se esbater em sombras na cruel passividade dos contornos pretos que enchiam a tela branca.
A sensação de absurdo sugava-lhe a felicidade e ela redesenhava as saudades.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Pedaços de vida #6

Guardou as fotografias e as recordações. Numa caixa fechadas e amontoadas. No coração amolgadas. Ali, os olhos não as sentem, ainda que as saibam de cor. Agora, compreende que naquele pretérito mais que prefeito se perdera a si própria num labirinto de ilusões intocáveis.
Sente-se exausta, vazia de emoções. Perdeu muitas coisas ao longo da vida, mas vê-lo sair dela, fê-la lembrar um filme. Não pelo protagonismo do vilão, mas pela incapacidade de alterar a sequência dos acontecimentos. No ecrã via-se uma pessoa a chorar, enquanto outra rasgava páginas de uma história escrita pelos dois. Esta última não olhava para ninguém, tinha pressa. Pouco tempo depois, apercebeu-se da má qualidade do filme. Quis desligar a televisão, mas não encontrava o comando. Ouviu-se um choro mais alto e ele saiu.
Hoje, sabe que cada dia tem um novo amanhecer, mesmo que ele não esteja ao seu lado. Sorri de lágrima ao peito, quando estiver pronta, poderá começar uma nova história. Agora, não.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Pedaços de vida #5

Saiu de casa no conforto de que em 10 minutos estaria de volta. Se não estivesse tão certa disso, talvez tivesse voltado. Afinal, para que nos serviriam as certezas se não fossem tão acertadamente incertas?
A vizinha tinha-lhe telefonado para a avisar de que um rapaz ali deixara um pequeno embrulho para ela. Contrariada, dirigiu-se em chinelos até ao outro lado da rua. Foi apenas quando tinha a caixa azul nas suas mãos que assumiu algum interesse por aquilo. Eram bombons. Não teriam sido enviados por alguém que a conhecesse bem. Eram bombons de que ela não gostava. Contudo, traziam um bilhete escrito à mão, numa letra sua velha conhecida.
Não o via ao que parecia terem sido anos e a recordação abalou-a como se um choque elétrico lhe percorresse o corpo. Eram uma história mal acabada. Uma história por acabar, dizia o bilhete. Aquelas palavras bailavam à sua volta, contornando o seu coração repleto de saudade. Mirou os chocolates; tinha sido com uma caixa igual que a relação deles começara, e era por isso que depois de acabar os odiava. Provou-os e não regressou a casa. Naquele momento quis tê-lo de volta.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pedaços de vida #4

D. Amélia senta-se diante da lareira. Longe vão os anos em que havia um corrupio de gente pela terra; agora, o silêncio reina. A saudosa azáfama da quadra natalícia do tempo em que havia crianças parece que não vai voltar. D. Augusta recorda. Quando era jovem, passava horas a preparar a casa para a aguardada noite de consoada. Hoje os filhos não a podem vir visitar, mas já lhe mandaram as boas festas. D. Natália sorri. Está, possivelmente, a sonhar. Em cada dia, sonha acordada com o marido que não voltou da guerra.
A D. Amélia, a D. Augusta e a D. Natália abraçaram muitas tristezas ao longo da vida. A demora dos anos moldou-lhes a forma. Envelheceram. Ainda assim, têm vontade de superar mais um ano. Mais um ano em que se têm umas às outras. Natal. União. Amizade.

Os amigos também fazem parte do nosso Natal.

sábado, 26 de novembro de 2011

Pedaços de vida #3

Olha para o relógio que traz no pulso. Aperta o casaco e acelera o passo. Anoitecera e, já não há vivalma na rua. Tudo lhe parece fantasmagórico. Em meados de novembro, ainda, não está o frio invernal a que a cidade habitou a gente que ali vive, embora, para ela seja o suficiente para ter dificuldade em respirar.
Sabe que amanhã Morais irá recebê-la e falar-lhe acerca do seu novo emprego. Mas não sabe quem é Morais. Nem, tão pouco, sabe onde pode encontrá-lo. Irá ficar à espera do seu telefonema. Enquanto isso, terá de passar esta noite no hotel da cidade. Amanhã procurará um sítio melhor.
A ansiedade percorre-lhe as veias, e ela reconhece a sensação. Reconhece-a dos dias após a traição, os dias antes do adeus. Está ali por fugir do passado, por medo do futuro. Quer recomeçar, só não sabe como.
– Está perdida?
A voz transporta-a de novo para a realidade. Quando se volta, há um homem de sorriso rasgado a fitá-la.
Talvez. – é tudo o que consegue dizer.


* bom fim-de-semana *

sábado, 5 de novembro de 2011

Pedaços de vida #2

Tinha decidido e não ia voltar atrás por motivo nenhum. Até que a morte nos separe, dissera. Mas, por alguma razão que não entendia, aquela longínqua frase já não fazia sentido. Dita no dia mais feliz, derivava agora no seu pensamento sob um rio de lágrimas prestes a secar.
Aguentara silêncios e ausências. Evitara recriminações. Dissera a si própria que não era o momento certo, que tudo ia ficar bem. Mas, nunca ficava e o momento certo ainda não era aquele. Fartou-se de sentir saudades, saudades dele, saudades dos dois, saudades de si própria. Conhecia-o bem, demasiado bem para saber que mesmo que esperasse, nada iria mudar na rotina. Falharam os projetos conjuntos, os sonhos, as promessas. Falhara o todos os dias da nossa vida.
De mochila às costas e sorriso forçado, abandonou-o. Diz que é para sempre.


...só para que saibam, escrever faz-me bem, nem que seja algo inventado e, escrito quando tenho páginas e páginas de biologia para estudar.

sábado, 22 de outubro de 2011

Pedaços de vida

Perdera a noção do tempo desde que um estrondo de uma porta a bater se fizera ouvir. Ele tinha saído. Não dissera onde ia. Lembrou-se que ele nunca dizia. No rescaldo da discussão observou o seu olhar perturbado e o temor na voz, mas sabia que ele não voltaria atrás no que tinha dito. Tinha desistido. Desistido de tentar fazê-la entender o que ele julgava claro pelas suas ações. Desistido de lutar contra os fantasmas do passado dela. Enfim, desistido da frágil relação que tinham construído em largos momentos.
Ele ia no segundo vodka. Limão, o preferido dela. Ela percorria as memórias do tempo em que riam juntos, juntos aninhados no sofá, conversavam, viam filmes. Ele gostava de filmes de animação. Ela gostava de romances.
Isso foi há meses, talvez mais de um ano. Ainda pensam um no outro mas, são demasiado orgulhosos para o admitir.


Não é meu costume mas, hoje apeteceu-me escrever um textinho destes :)